maximogarciaworld.com ↗ · Histórias reais · Com fontes · Sem conteúdo explícitoPelo ator pornô Maximo Garcia
Retrato de Amarna Miller, fotografada por Amarna Miller
Amarna Miller · Foto: Amarna Miller / CC BY-SA 4.0
Minha opinião · Amarna Miller

Amarna Miller: a formada em Belas Artes que largou o pornô

Ela comandou a própria produtora aos 19 anos, virou a atriz mais buscada pelos espanhóis no maior site pornô do mundo e depois saiu sem alarde. Depois de 14 anos neste ramo, é isto que acho que Amarna Miller fez certo e o que, segundo ela, a indústria faz errado.

Maximo GarciaPor Maximo Garcia

Fatos principais

  • Quem: Amarna Miller (nascida em 29 de outubro de 1990, em Madri), youtuber e escritora espanhola, ex-atriz, produtora e diretora de filmes adultos (Wikipedia)
  • Formação: Graduação em Belas Artes pela Universidad Europea de Madrid, com especialização em fotografia (El País, 2019)
  • Carreira: Começou aos 19 anos com a própria produtora, Omnia-X, que comandou por cinco anos; chegou a ser a atriz mais buscada pelos usuários espanhóis do Pornhub (Wikipedia; El País, 2019)
  • Saída: Parou de gravar em 2017, sem nenhum anúncio público (El País, 2019)
  • Depois: Youtuber, apresentadora de TV, autora de Manual de psiconáutica (2015) e Vírgenes, esposas, amantes y putas (2021) (Wikipedia; El País, 2021)

Existe um tipo de atriz que quem é de fora desta indústria não acredita que exista. Culta, articulada, política, artística, está no ramo porque escolheu e não porque não tinha para onde ir, e é brutalmente honesta sobre os defeitos dele. Quando alguém assim aparece num talk show, o público fica confuso. Não sabe em que gaveta colocá-la.

Amarna Miller é essa atriz. Estou neste ramo há 14 anos. Sou um dos atores pornô mais buscados do mundo e já trabalhei com a maioria das principais atrizes da minha geração. Conheci pouquíssimas pessoas capazes de explicar esta indústria (sua liberdade e sua precariedade ao mesmo tempo) com tanta clareza quanto ela.

Ela também é um caso raro em outro sentido. Saiu sem escândalo, sem declaração dramática, sem história de conversão. Simplesmente parou e começou a construir outra coisa. Vale a pena estudar essa saída tranquila. Então aqui está a história dela, com os fatos, e depois minha opinião sincera.

Marina de Vallecas: uma infância solitária e estudiosa

O verdadeiro primeiro nome de Amarna Miller é Marina. Filha única, cresceu em Vallecas, um bairro operário de Madri. Numa longa entrevista de 2019 ao El País, descreveu uma infância sem televisão (os pais não deixavam), cheia de livros, jogos de tabuleiro e museus. Sofreu bullying e, durante anos, não soube se relacionar com outras crianças (El País, 2019).

“Minha infância e minha época de escola foram muito complicadas porque meus pais são muito peculiares”, disse ela (tradução nossa do espanhol). “Estimularam muito o meu lado intelectual, mas me faltou contato com o mundo… eu era a garota esquisita da escola. Mas acabei superando esses obstáculos e tudo isso me transformou em uma pessoa forte e independente” (El País, 2019).

O nome artístico dela diz tudo sobre aquela garota. Combina Amarna, a antiga cidade egípcia às margens do Nilo, com o sobrenome do romancista americano Henry Miller, que ela lê com devoção desde a adolescência (Wikipedia; El País, 2019). Estudou Belas Artes na Universidad Europea de Madrid, com especialização em fotografia, e durante anos escreveu um blog quase diariamente (El País, 2019).

Quero destacar algo que ela disse sobre como aprendeu o que era sexo, porque explica muito por que tanta gente acaba com ideias estranhas sobre o assunto. Os pais não lhe deram educação sexual, contou, e mudavam de canal sempre que aparecia algo sugestivo na TV. “De forma velada, o que isso me ensinava era que havia algo de ruim ali, mas eu não sabia o quê” (tradução nossa) (El País, 2019).

Esse silêncio é exatamente a lacuna que minha indústria acaba preenchendo para milhões de jovens, e, como você vai ver, ela tem opiniões fortes sobre isso.

Produtora própria aos 19 anos

Isto é o que a diferencia de quase todas as atrizes que conheço: ela não começou trabalhando para ninguém. Começou como chefe.

Miller entrou na indústria aos 19 anos e comandou a própria produtora, Omnia-X, por cinco anos (Wikipedia). O El País informou que ela estreou num filme dirigido e produzido por ela mesma (El País, 2021).

E ela foi muito clara sobre o motivo. Segundo o El País, não começou por necessidade; começou porque quis, já que havia muito tempo tinha curiosidade pelo trabalho sexual (El País, 2019).

Vou ser sincero: quando ouço “empresa própria aos 19”, o profissional em mim fica impressionado e o lado cauteloso fica preocupado. Impressionado, porque ser dona da própria produção significa ser dona dos seus direitos, da sua imagem e das suas decisões, a proteção mais importante neste ramo. Preocupado, porque comandar uma empresa aos 19 anos significa assumir todos os riscos sozinha. Ela fez isso por cinco anos. Essa é uma conquista séria.

Ela ganhou o Prêmio Ninfa de Melhor Atriz em 2014, Melhor Site Pessoal em 2015 e 2016, e o Prêmio TEA de Melhor Intérprete Feminina em 2017. Foi indicada duas vezes ao prêmio AVN de Atriz Estrangeira do Ano (Wikipedia). E, segundo o El País, no auge foi a atriz mais buscada pelos usuários espanhóis no Pornhub (El País, 2019).

“Pornô ético” e a honestidade sobre o resto

Amarna se tornou uma das defensoras mais conhecidas do chamado pornô ético ou feminista: trabalho feito num ambiente seguro, saudável e consensual, em que quem atua é tratado com respeito e de igual para igual (El País, 2019).

Mas é por isso que confio nela: nunca fingiu que a indústria inteira era assim. A Wikipedia a cita reconhecendo que trabalhou em “uma indústria feita por e para homens” e que “se eu só gravasse pornô feminista, não pagaria nem metade das contas”. Também disse que os direitos de quem atua não são respeitados na maioria dos países fora dos Estados Unidos (Wikipedia).

É a frase mais honesta que já li de alguém que defende o pornô ético. O ideal existe. Só não paga o aluguel sozinho. Então você faz o trabalho em que acredita e o trabalho que paga as contas, e tenta não deixar o segundo engolir o primeiro. Toda pessoa deste ramo que eu respeito vive com essa tensão.

Quanto ao dinheiro, ela foi ainda mais direta. Perguntada na televisão quanto tinha no banco, respondeu 15 mil euros. “Qualquer ideia que as pessoas tenham sobre o que uma atriz pornô ganha não é nada comparado ao que uma atriz convencional ganha por aparecer 20 minutos em uma série de TV. É uma indústria precária… Não é dinheiro fácil”, disse ela ao El País (tradução nossa). O jornal acrescenta que a falta de regulamentação que ela descreveu se traduz em contratos abusivos em que quem atua não tem controle sobre onde as cenas vão parar, como a imagem é usada ou com que nome aparece nos créditos (El País, 2019).

Ela está certa. Eu disse a mesma coisa sobre os direitos perdidos de Lana Rhoades e a luta de Crissy Moran para retirar seu conteúdo. Países diferentes, décadas diferentes, o mesmo problema: a atriz assina uma vez e perde o controle para sempre.

Uma campanha que ganhou um Leão de Cannes

Em 2016 ela foi o rosto e a voz de um polêmico anúncio do Salão Erótico de Barcelona. Chamado Patria (“Pátria”), criticava a hipocrisia espanhola em relação ao sexo e terminava com a frase: “Vivemos num país asquerosamente hipócrita, mas alguns de nós não se rendem.” O anúncio ganhou um Leão de Prata no festival Cannes Lions (Wikipedia).

Ela apareceu nos grandes programas da TV espanhola, como Late Motiv de Andreu Buenafuente e La Resistencia de David Broncano, apresentou o Diario Vice no Movistar+ e foi capa da Interviú em 2014 e 2016. Em 2016 debateu “Sexo, pornografia e feminismo” com dois deputados do Podemos, defendendo que o pornô não pode ser usado como educação sexual, posição que, segundo a Wikipedia, não foi bem recebida por alguns grupos feministas (Wikipedia).

Esse último ponto é o que eu sublinharia para todos os pais que estiverem lendo isto. Uma atriz (alguém que ganhava a vida com filmes adultos) defendendo publicamente que pornô não é educação sexual. Ela disse ao El País que os adolescentes precisam ouvir que o que encontram online sobre sexo “é extremamente tendencioso” e que “a linha entre a ficção e a realidade na internet é muito tênue” (tradução nossa) (El País, 2019). Eu concordo 100%. O que fazemos é entretenimento, feito por profissionais, editado e com luz de estúdio. Não é um manual. Quem aprende sobre intimidade com isso está aprendendo com ficção.

O relacionamento ao qual ela sobreviveu

Em 2019, o El País contou que, um ano depois de sair da casa dos pais aos 19 anos, ela sofreu abusos de um parceiro, um relacionamento que mais tarde descreveu em um vídeo de 45 minutos no YouTube. “Sair disso foi como sair de um vício, como largar a heroína”, disse ela. Descreveu uma manipulação emocional e psicológica tão sutil que só chamou aquilo de abuso muito depois de sair: “Meu agressor era uma luva de veludo” (tradução nossa) (El País, 2019).

Ela fez o vídeo, explicou, porque os amigos não entendiam como aquilo podia acontecer com alguém tão independente. A resposta dela: a lavagem cerebral que um agressor faz “é tão brutal que anula” (El País, 2019).

Incluo isto porque as pessoas acham que o perigo nesta indústria está só no set. Às vezes, a pessoa mais perigosa na vida de uma atriz está em casa. E, por causa do estigma, muitas vezes ela tem menos gente a quem recorrer. Se você se reconhecer na história dela, converse com alguém de confiança ou procure um serviço de apoio a vítimas de violência doméstica.

A saída: “Não me via como atriz pornô aos 40”

Em 2017 ela parou de gravar. Não fez nenhum anúncio (El País, 2019).

A explicação dela é a frase de despedida mais honesta que já li, e coloco aqui inteira (tradução nossa): “Saí do pornô porque me desgastei. Nos primeiros anos, era um hobby para mim. Depois virou um trabalho, mas um trabalho de que eu gostava muito, que me animava. E, a certa altura, quando pensei em sair, começou a ser um trabalho que eu não tinha vontade de fazer. Resolvi dar um tempo, e quando parei percebi que não queria só dar uma pausa. Queria parar de vez. Não me via como atriz pornô aos 40 anos, então sabia que esse momento chegaria mais cedo ou mais tarde” (El País, 2019).

Em 2021 ela disse ao mesmo jornal que isso aconteceu gradualmente: “Não foi uma epifania nem nada parecido”. Gravar simplesmente deixou de ser “um desafio” (tradução nossa) (El País, 2021).

Sem conversão. Sem vilão. Sem colapso. Só uma profissional que percebeu que não queria mais fazer aquele trabalho e se escutou. Raramente vi alguém descrever isso com tanta clareza, e vou te contar um segredo: esse sentimento que ela descreve é o motivo mais comum para as pessoas deixarem este ramo. Só não vira manchete.

Uma segunda vida: van, YouTube, livros

Depois de sair, estrelou seu primeiro longa-metragem fora do pornô, Contigo no, bicho, que estreou no Festival de Cinema de Málaga em 2017 (Wikipedia). Também em 2017 ela ficou gravemente ferida num acidente de moto no exterior e precisou de cirurgia e transfusão de sangue (Wikipedia).

Ela viajou, morou numa van enquanto atravessava os Estados Unidos e virou youtuber, falando de sustentabilidade, ecologia, estigma e estilos de vida alternativos; o El País contou que ela financiava o canal com apoiadores no Patreon (El País, 2019; Wikipedia).

Já havia publicado o Manual de psiconáutica em 2015, livro de poesia e fotografia com prólogo do cineasta Nacho Vigalondo (Wikipedia). Em 2021 publicou pela Espasa o ensaio Vírgenes, esposas, amantes y putas (“Virgens, esposas, amantes e putas”), que o El País descreveu como uma espécie de exorcismo pessoal, escrito na primeira pessoa, que lhe serviu de terapia (El País, 2021).

E ela manteve o nome. “Tenho orgulho de ter sido trabalhadora do sexo, por isso não mudei meu nome: ainda sou Amarna Miller, nome que usei quando entrei no pornô” (tradução nossa). Ao mesmo tempo, admitiu: “Ter trabalhado no pornô é um estigma que estará comigo por toda a vida” (El País, 2019).

Ela resumiu o verdadeiro problema em 2021: “O pior do pornô não tem nada a ver com o pornô, e sim com a forma como a sociedade entende o sexo e o estigma constante que você tem que enfrentar” (tradução nossa) (El País, 2021).

O que toda atriz deveria aprender com Amarna Miller

  1. Seja dona da sua produção, se puder. Ela começou como a própria produtora; isso é controle desde o primeiro dia.
  2. Seja honesta sobre o dinheiro. Os ideais éticos não pagam todas as contas. Planeje-se de acordo.
  3. Escute o momento em que você deixa de querer ir trabalhar. Esse é o seu sinal de saída. Não o ignore por mais alguns cachês.
  4. Construa uma voz fora da indústria. O blog, a arte, os livros e o canal dela já existiam antes de ela sair.
  5. Não deixe o estigma mudar seu nome. Manter o nome foi uma declaração. E eu a respeito.

Para mais histórias de atrizes que saíram e se reinventaram, leia minhas colunas sobre Stoya, outra escritora e fundadora, e Nikita Bellucci, a estrela francesa que também lutou por condições éticas de trabalho.

Minha opinião (opinião — Maximo Garcia)

Amarna Miller é uma das pensadoras mais lúcidas que minha indústria já teve. Entrou por escolha, começou sendo a própria chefe, construiu uma reputação baseada no trabalho ético admitindo que só o trabalho ético não pagava as contas, e falou de dinheiro, contratos e estigma com mais honestidade do que quase qualquer pessoa. Depois saiu exatamente como disse que sairia: quando o trabalho deixou de fazer sentido, sem drama, com a próxima vida já meio construída.

Depois de 14 anos neste ramo, posso afirmar que quem sobrevive emocionalmente é quem trata o negócio como ela: como um capítulo, não como uma identidade; como um trabalho com riscos reais, não como uma fantasia. E concordo sobretudo com a conclusão dela. A pior parte deste trabalho não é o trabalho. É como o mundo te trata por tê-lo feito.

Escrevo sobre a realidade deste trabalho, o bom e o ruim, em maximogarciaworld.com.

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Perguntas frequentes

Quem é Amarna Miller?

Escritora e youtuber espanhola, ex-atriz, produtora e diretora de filmes adultos, nascida em Madri em 1990 e formada em Belas Artes pela Universidad Europea de Madrid (Wikipedia; El País).

Por que Amarna Miller deixou o pornô?

Ela contou ao El País que foi se desgastando aos poucos: passou de hobby a um trabalho que adorava e depois a um trabalho que já não queria fazer, e não se imaginava ainda fazendo aquilo aos 40 anos (El País, 2019).

Que livros Amarna Miller escreveu?

Manual de psiconáutica (2015), uma mistura de poesia e fotografia, e o ensaio Vírgenes, esposas, amantes y putas (Espasa, 2021) (Wikipedia; El País, 2021).

De onde vem o nome Amarna Miller?

Combina Amarna, a antiga cidade egípcia às margens do Nilo, com o sobrenome do escritor Henry Miller, que ela lê desde a adolescência (Wikipedia; El País, 2019).

Como checamos as informações

Cada fato e citação foi conferido com as fontes abaixo. As citações dadas originalmente em espanhol são traduções nossas e estão marcadas como tal; tudo o que não pudemos confirmar foi deixado de fora. As opiniões são de Maximo Garcia e são rotuladas como tal.

Fontes

Arquivado em: Saíram da indústria e se reinventaram · Atrizes que fizeram faculdade · Autoras e memórias · Ativistas e empresárias

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Maximo Garcia, ator pornô e autor da Casa do Maximo
Sobre o autor

Maximo Garcia

Catorze anos no cinema adulto. Um dos atores mais buscados do mundo. Já gravou com a maioria dos grandes nomes da indústria — e na Casa do Maximo conta as histórias reais delas, com o olhar que só quem está lá dentro tem.

Ator e colunista espanhol. Todo fato tem fonte; toda coluna é a opinião dele.

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